Valéria Cristina Gurgel
Você já parou para refletir que às vezes, basta alguns minutos para entrarmos no mundo do outro? E a partir de então mostrarmos ao outro que ele não está só?
Sim, isso é possível! Não é difícil, não custa nada e pode trazer uma injeção de ânimo, de coragem e de fortalecimento de laços eternos de afetos, jamais esquecidos.
É o que às vezes, deixaremos para sempre plantado no coração do planeta, uma breve lembrança de quem não permitiu que o outro, passasse desapercebido por aqui.
Seria isso um conceito de imortalidade? Uma forma mágica de nos tornarmos eternos na memória dos seres vivos, através de um pequeno e simples gesto de amor? O que acarretaria uma vibração imensa de unicidade, de eterna gratidão. É assim que não morremos para o mundo! Através de nossas pequenas, simples, mas, boas ações. É a tal da generosidade. Eu acredito que sim!
Basta querer, basta permitir-se, basta fazer acontecer!
A empatia nos permite calçar o sapato do outro, mesmo se o número for menor ou maior.
E se o outro não tiver pé, nem patas, nem asas, nem hastes, está tudo bem também, sempre haverá uma maneira de caminharmos juntos, por uns minutos apenas, quem sabe?
Quando realmente decidimos fazer, fazemos! Pode não ser cômodo, não ser fácil, pode não significar quase nada para nós, ou a princípio, para o outro, pode nem resolver seu problema completo, suas reais necessidades, sim, claro, e está tudo bem.
Lembre-se que é apenas por alguns minutos! Um pequeno gesto! Um bom exemplo que pode impulsionar outros mais, ao demais.
O mundo atual em que vivemos, nessa pressa incontida e uma busca interminável pelo mais, parar por uns instantes, e buscar reconectarmos conosco, reencontrar esse olhar atento dentro de nós, pode ser a nossa própria cura emocional e dos demais.
E isso, muitas das vezes, vale mais que muitas palavras, quantas vezes proferidas sem pensar e jogadas ao vento.
Um olhar acolhedor é manifestação plena de amor incondicional, que não julga, não condena, não critica não acusa, apenas acolhe, tenta compreender e sentir o que possa ser oferecido de essencial. A nossa atenção, e isso, vale mais que muitas ofertas materiais.
Aquela velha história de achar que o problema não é meu, não tenho nada com isso e que sempre haverá alguém com melhor condição para fazer, mais, tempo, mais instrução, mais dinheiro, é papo bagatela, desculpa esfarrapada de quem não deseja fazer a sua parte.
Parar, observar, sentir, contemplar é preciso. Precisamos treinar esse apurar do olhar, acalmar os sentimentos! Aprender a respirar o ar da sabedoria que sopra suave em nossas narinas. Termos a sagacidade para absorver com serenidade e compaixão nos momentos fugazes, os que deixamos escapar entre os dedos.
E se não tivermos conseguido agregar a esses momentos corriqueiros, um grão de areia sequer em benefício da construção de um mundo melhor, mais leve, mais tranquilo, mais compartilhado, mais agregador de boas energias, de simpatia, de amor, de percepção, para que valeu viver?
Muitos animais uivam incansavelmente, mendigando apenas um olhar, um olá, uma escuta responsável e atenta que possa entender e decodificar a sua mensagem, seu grito de socorro, os seus sofridos lamentos e anseios de companhia, de carinho, de cuidados, de sede, de fome de dor.
Mas, muitos não encontram tempo, nem razão, nem interesse para perceber. É mais fácil ignorar!
E se não treinarmos essa atenção, se não formos capazes de perceber um animal sedento, com frio, doente, uma planta queimando ao sol, um gatinho morrendo de fome, entender que todo ser vivo precisa de água para beber, como seremos capazes de enxergar o outro?
Ainda que habitando em uma mesma forma dessa perene carcaça de uma estrutura física, tida como humana, ainda assim, julgamos ser melhores!
Por suas limitações, por suas crenças diferentes, por seu biótipo, poder econômico, por sua graduação, sua profissão, por sua etnia diferente, por seus costumes, sua forma de falar e culturas locais distintas?
Muitas vezes alguém urra em silêncio, e mesmo sendo de nossa espécie, e pedindo socorro, tapamos os ouvidos e fechamos os nossos olhos para não ouvir, nem ver!
E se não somos capazes de perceber a vida que pulsa em uma formiga, em uma pequena flor, em um pássaro que perdeu sua asa, em um cãozinho abandonado nas ruas ou no fundo de um quintal, como seremos capazes de enxergar o valor da vida em tudo e todos que seguem tentando bravamente seguir sobrevivendo por aí, cada um a seu modo custoso e de imensa coragem e enfrentamentos aos desafios tantos?
Tudo o que é vivo quer viver! Essa é a lei natural divina implantada dentro de cada ser vivente.
Mas, quando expandimos a nossa consciência ao ponto de percebermos que uma gota d’água representa todo o oceano, que a mesma energia que alimenta a vida de uma célula, de uma ameba, de um minúsculo inseto que seja, é a mesma que alimenta o princípio da formação de todas as demais vidas, e que somos todos um, tudo começa a mudar em nós.
E é no processo de desfragmentação das matérias orgânicas, que começamos a repensar as nossas insensibilidades tantas, nossas crenças limitantes e os meros conceitos de valores individualistas e de supremacia sobre as demais espécies.
Os outros reinos mineral, vegetal e animal não compartilham conosco um mesmo espaço terreno somente para servir-nos, colorir, perfumar, adornar o ambiente ou completar nossos espaços vazios do inconsciente. Há também os que nos fazem sentir incomodados por demais e tudo isso tem uma razão por trás, que é a de nos ensinar, a sermos melhores! Mais sensíveis, mais tolerantes, mais sociáveis, mais perceptivos.
É preciso aprender que por aqui, tudo que vive, tem um objetivo maior, de nos ensinar, de auxiliar nesse nosso lento processo evolutivo. Aprender a observar, a agradecer, a respeitar e a servir.
No mais, viver, se não tivesse essa lógica profunda, sensata e verdadeiramente humana, estaríamos aqui apenas por uma mera aventura, de uma breve temporada de férias no Caribe!
@valeriacristinagurgel
Publicado em meu Site Literário
www.valeriagurgel.com