Valéria Cristina Gurgel
Os pés, descalços, se arrastaram por séculos, entre brasas de sofrimentos torpes e inadmissíveis, causados por mentalidades cruéis e doentias. Um passado que envergonha o Brasil. Uma história triste, tenebrosa, que poderia ter sido diferente, mas não foi.
Muitos ainda tentam apagá-la, enaltecendo os poderosos, os que retinham e retém as riquezas, fingindo esquecer, desmerecendo quem verdadeiramente construiu e segue construindo nossa nação com braços fortes. É o egoísmo e a ingratidão que impede nossa evolução.
Foram eles, nossos irmãos de sangue, de origem africana, que com resiliência e coragem, escreveram nossa história com suor e sangue. Nos canaviais e produção de açúcar, nas lavouras de café e cacau, nas sombrias e mortíferas minas de ouro, prata e pedras preciosas.
Escravizados, alimentaram metrópoles e abrilhantaram muitas coroas. Às custas de vidas inocentes, de infâncias roubadas, acorrentadas e violadas, corações de mães dilacerados, famílias dissipadas e corpos açoitados no tronco. Cenas que não se apagaram e jamais se apagarão da memória de quem tem sentimento.
Com coragem e fé, eles caminharam. E entre chibatadas, correntes de ferro e as labaredas insanas da injustiça, da insensibilidade, da covardia e da ganância, resistiram.
Os pés dos oprimidos seguiram em brasas e foi das cinzas que eles renasceram, como a ave fênix.
Esse sangue derramado sempre foi, é e será o nosso próprio sangue imaculado, que corre em nossas veias. Não é sobre raça, não é sobre uma questão de cor e sim de humanidade. Somos uma só raça, mesmo que chego a acreditar que sempre houve duas: A raça humana e a desumana.
Desde os primórdios do mundo a história nos aponta as lutas de castas avassaladoras e escravização. A supremacia de poder sobre os menos favorecidos e sempre o egoísmo sentado no trono.
Em pleno século XXI, e ainda vivemos em um mundo distópico. Opressores seguem autoritários e intolerantes, usufruindo das benesses da supremacia de poder. Décadas pós décadas, incitando o ódio e colocando uns contra os outros, usando máscaras da generosidade hipócrita. Enquanto aplaudem de camarote a miséria, as desigualdades gritantes e as guerras, lamentavelmente, não é de se esperar muitas mudanças!
Ao que se parece, somente envelhecemos. E passamos pelo tempo cronológico em linha reta, mesmo em meio aos tantos tropeços que a vida dá, não ascendemos em espiral da sabedoria. Aprendemos muito pouco por tudo o que a nossa ancestralidade nos deixou de experiências vivenciadas na pele.
Hoje, afrodescendentes ainda lutam bravamente! Pela equidade, pela igualdade de direitos, por respeito e o combate ao racismo estrutural, aquele arraigado na raça desumana. Porque humanos somos todos nós que sabemos que todos somos um, sem distinção!
Essa luta é diária e ininterrupta. Direitos esses, que sempre deveriam ter sido cumpridos. Uma causa que deve ser lembrada e defendida não somente no dia 20 de novembro, mas por todos os dias de nossas vidas. A consciência não é negra, é de todos nós!
Expansão de consciência não se dá repetindo os mesmos erros do passado e sim revendo, criteriosamente, cuidadosamente, desde os nossos velhos pensamentos racistas, às nossas palavras venenosas e atitudes que discriminam o nosso semelhante.
Não, não é possível se acostumar nem admitirmos mais esses tipos de comportamentos estúpidos, imaturos e criminosos uns com os outros em nossa sociedade. Afinal, somos uma só humanidade que já carrega milênios de anos de existência na bagagem do viver e seguimos tentando aprender a ser um Ser Humano!
Não podemos mudar o que passou, mas podemos construir um mundo melhor, começando por aprendermos a respeitar a nós mesmos.
Quem se respeita, se cuida. E quem se cuida, cuida de seus pensamentos, de suas palavras e de suas atitudes. Tudo se dá e se transforma é de dentro para fora.
A mudança pode acontecer se primeiramente mudarmos a nós mesmos. Podemos construir uma sociedade humanizada, sem preconceitos, começando de dentro de nós. Respeitar, cuidar e olhar para o outro; de coração para coração!
A essência humana é o de mais precioso que possuímos. É o que sobrevive. É única, intransferível, inerente do ser e está além e aquém da pele, dessa carcaça perecível. Mesmo aqueles que ainda não se deram conta disso, ou ignoram essa verdade.
Ela é a mesma que habita todos os seres humanos, em suas diversidades étnico sociais, de poder aquisitivo alto ou baixo e em todos os continentes. Independe de culturas, educação, de crenças, valores, costumes, comportamentos, gostos, gêneros, preferências, necessidades especiais e idades.
O direito a uma vida digna, refletida, pensada, educada, bem alimentada, respeitada, honrada, protegida e acolhida é o mínimo que cada um que nasce na Terra merece ter. É desse princípio básico que se constrói seres humanos. E só pode ser arquitetada, se ancorada na ética e nas virtudes adquiridas no largo da existência.
Os pés que lutam com dignidade seguem em brasas. Oprimidos buscam com esperança um oásis para o corpo cansado. Já a consciência dos opressores segue em chamas...
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Abraços afetuosos da autora:
@valeriacristinagurgel
Publicado em meu Site Literário www.valleriagurgel.com